AS RAÍZES DA HISTÓRIA DE
VALENÇA
Janete Pereira de Sousa Vomeri[1]
Um conto infantil
Acarilé é uma criança negra, curiosa e cheia de
perguntas. Seu amigo Valencino é um menino indígena, sábio e observador.
Acarilé gostava muito de observar o rio, as árvores
e os pássaros de Valença. Um dia, ela perguntou ao seu amigo Valencino:
— Valencino, quem vivia aqui antes da cidade
existir?
Valencino sorriu e respondeu:
— Antes de Valença, essas terras já eram
habitadas pelos povos indígenas. Eles foram os primeiros moradores daqui.
Acarilé ficou surpresa:
— Sério? Quem eram eles?
— Eram vários povos — explicou Valencino. —
Entre eles, os Tupinambás, que viviam perto do mar e dos rios, e os Tapuias,
como os Gueréns e os Aimorés, que viviam nas matas e no interior. Esses últimos
também eram chamados de botocudos.
— E como eles viviam? — perguntou Acarilé,
curiosa.
Valencino começou a contar:
— Os Tupinambás gostavam de navegar. Usavam
canoas e pescavam no mar e nos rios. Já os Tapuias viviam nas florestas,
caçando, coletando frutas e aproveitando tudo o que a natureza oferecia.
Acarilé achou aquilo muito interessante:
— Eles sabiam viver bem na natureza, né?
— Sabiam sim! — disse Valencino. — Eles nos
ensinaram muitas coisas importantes, como o uso da mandioca para fazer farinha
e beiju.
— Eu adoro beiju! — disse Acarilé, animada.
Valencino continuou:
— Eles também sabiam conservar alimentos,
secando peixes ao sol ou usando o moquém. Construíam casas de taipa e palha,
faziam cestos, esteiras e muitos objetos com fibras e madeira.
— Que legal! — disse Acarilé. — E eles
brincavam também?
— Claro! — respondeu Valencino. — Muitas
brincadeiras que conhecemos hoje vêm deles, como a peteca, o pião e o cabo de
guerra. Eles também faziam música com instrumentos como chocalhos, pau de chuva
e reco-reco.
Acarilé observou:
— E essas pinturas no corpo?
Valencino explicou:
— A pintura indígena é muito importante. Ela
representa a identidade, a cultura e as tradições de cada povo. Como eles não
escreviam como nós, utilizavam pinturas e histórias para preservar sua cultura
e transmiti-la às novas gerações.
Acarilé ficou pensativa e perguntou:
— E quando os portugueses chegaram?
Valencino respondeu com um tom mais sério:
— A chegada dos portugueses trouxe muitas
mudanças. Muitos povos indígenas perderam suas terras e sofreram bastante.
Alguns grupos, como os povos tapuias, chegaram a desaparecer.
— Que triste… — disse Acarilé.
— Sim, mas muitos deles resistiram — completou
Valencino. — Lutaram para manter suas culturas, suas tradições e seus modos de
viver.
Depois de um tempo, Valencino sorriu
novamente:
— E sabe de uma coisa? A cultura indígena
ainda está presente em nossas vidas.
— Onde? — perguntou Acarilé.
— Na comida, nas palavras, nas festas, no
artesanato e nos costumes — respondeu ele. — Aqui em Valença, vemos essa
influência em muitos lugares.
Acarilé olhou ao redor e disse:
— Então a história de Valença começou com os
povos indígenas!
Valencino concordou:
— Isso mesmo! E essa história continua com a
gente.
Acarilé sorriu e disse:
— Precisamos respeitar e valorizar os povos
indígenas!
E assim, olhando o rio e a natureza, os dois
amigos entenderam que o passado vive no presente e ajuda a construir o futuro.
Os povos
indígenas fazem parte da nossa história.
Respeitar sua cultura é respeitar nossas raízes.
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